Não devemos temer o fel



Texto e colaboração: Henrique Pimenta.


A política apresenta fartura temática desde sempre. Mas a política nacional de uns tempinhos para cá vem exagerando na dose, conforme se lê nos veículos jornalísticos “mais populares” ao publicarem uma quantidade impressionante de fatos e versões, de acordo com sua linha editorial ou com as moedinhas pagas pelos governos por sua propaganda, capazes de enlouquecer qualquer leitor, mesmo os mais atentos.

O painel é tão amplo e as versões dos fatos tão articuladamente produzidas que todos suspeitamos de que nossos políticos andam se esquecendo de pôr na ordem do dia alguns valores, como ética, moral, compromisso com a verdade e trabalho desapegado, valores caros a todo servidor público.

Para além da classe jornalística, os humoristas aproveitam para desvelar esses prolongados dias canídeos por meio do riso. Nesse caso, não é um homem a morder um cão que vira notícia, de modo inverso e bastante usual é o cão (político) a morder o que ainda resta de carne no homem (cidadão) que merece nota satírica.

Outro grupo que não se aliena, expondo o sem sentido sofrível e risível da atual política brasileira, é o dos literatos que mescla, por vezes, as qualidades de um bom jornalista com as de um bom humorista a fim de produzir um mapeamento das absurdidades cometidas contra a coisa pública. E, convenhamos, seria bastante inusitado, dentre diversas possibilidades expressivas da literatura, que um escritor optasse pela forma clássica do soneto. Sim? Ou não? A resposta de Gregório de Matos seria não. A resposta de Renato Suttana também é não.

Renato Suttana, poeta e tradutor radicado em Dourados-MS, por ser um artista das letras com verve, variados talentos e recursos técnicos, vivendo o hoje desses tempos bicudos (e caninos), comprova com seu livro “Indigestos e purgativos” que a poesia satírica expressa pelo bom e velho soneto de linhagem clássica é, sim, capaz de abordar os senões da odienta, digo, da hodierna política tupiniquim. O livro, publicado em dezembro de 2016, de modo despretensioso, utiliza-se de trechos de notícias veiculadas à época, tendo o foco no “golpe de estado” de então, como motes desenvolvidos nos sonetos. Opa, e o risco de ser uma obra datada?

O risco de o autor ter escrito uma obra datada se desfaz um ano depois, porque praticamente todos os seus sessenta sonetos, em dezembro de 2017, reverberam: os nomes, os sobrenomes, as ações e as situações repetem-se ou desdobram-se de forma idêntica. Logo, o misto de riso e dor, infelizmente, conserva-se análogo. Legislativo, Executivo, Judiciário e seus apaniguados permanecem vivíssimos em lambanças passadas e presentes, alimentando-se com o comezinho de sua insaciável sordidez. Do jeito que o Brasil caminha – e capenga! –,  parece que Suttana vai se eternizar nesses sonetos.

Interessante ainda ressaltar que, em nota introdutória, o autor previu que seu livro na condição de poesia quase nada poderia fazer para sensibilizar as pessoas perante tragédias sociais tão agudas, mas teria sucesso ao caçoar dos golpistas, mesmo que melancolicamente, e ao conseguir despertar a consciência crítica de alguns de seus leitores.

Asqueroso no tema: politicalha, papa-fina no desfecho: sonetos comprometidos com a denúncia social e com a boa literatura, “Indigestos e purgativos” não apenas desopila o fígado, como também alegra a alma. Leiamos, pois, os sonetos de Renato Suttana para manter os dentes à mostra e o sistema digestório saudável, apesar dos pesares.

Livro: Indigestos e purgativos
Gênero: poesia (sonetos)
Editora: ARS
Autor: Renato Suttana
Site do autor: http://www.arquivors.com

O livro pode ser adquirido nos sites da Amazon e da Estante Virtual.

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