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Da minha lista de tristezas: a digitalização da arte

Atualizado: 7 de jun.

Não tenho medo, mas uma espécie de tristeza vaticinada, quando o assunto é arte lida¹ a custo de uma digitalização forçada. Tristeza de invés, não ao invés, do avesso mesmo. Tristeza líquida. Tristeza que de qualquer lado, ponto de vista, é tristeza. Medo ficou para trás, quando a internet ainda era sonho. Hoje é pesadelo. Pesadelo para mim, que amo e vivo pelas coisas orgânicas e analógicas. Pedir para que eu leia um livro digital, ou escute música por streaming, por exemplo, é o mesmo que pedir para que eu beije sem boca na boca e troca de saliva, mas com um emoji enviado por um disparo eletrônico/digital de um aparelho álgido como é um aparelho celular – smartphone.


Smartphone é “smart” para quem o criou, patenteou, e o comercializa; para quem apenas utiliza um smartphone para trabalhar, para se comunicar, navegar na internet, esse aparelho está mais para “bondagephone”, no sentido de escravidão, servidão, cativeiro, sujeição, dependência. “Smart” para poucos, “bondage” para todos os outros. E o termo é proposital. “Bondage”, porque normalizamos, resignamos e, conscientemente, sentimos prazer com isso. Mas um prazer artificial, uma cilada.


Enquanto escrevo esse texto, escuto música de um disco de vinil através de um aparelho eletrônico sem conexão com a internet, no mesmo cômodo em que estou cercado por estantes repletas de livros e mais livros físicos, porém, enquanto escrevo, utilizo um notebook conectado à rede Wi-Fi da minha casa e, brevemente, compartilharei o texto por um aplicativo de mensagens instantâneas. Utilizo um meio digital/virtual para criticar o mesmo. Mas não há hipocrisia, nem contradição, uma vez que a crítica é, agora serei o mais claro que consigo, com relação ao digital como um fim e não como meio. O digital como um meio, até certo ponto, não é o problema, mas, repito, como fim é que é a cilada. Carros da Uber sem motoristas, comida 3D, e-book, deficiência de vitamina D.


O digital, a internet, está na mão do Capital, dos super ricos, não está na mão do povo, do trabalhador. Quando os donos do Google, por exemplo, quiserem acabar com tudo é só “apertar um botão”, figurativamente falando. O digital, a internet, não democratiza a informação. Hoje, mais do que nunca, robotiza, desumaniza. “Vocês querem nos robotizar ao invés de humanizar”, canta o rapper Edgar, nos meus ouvidos, enquanto escuto o disco no formato vinil. “Me sinto um cachorro de estimação do meu celular”, o mesmo Edgar me influencia, sem adSense, sem interrupção, enquanto escrevo esse texto. E é aí que quero me ater.


O digital deve ser apenas um meio. Uma ponte para se chegar à arte. O livro impresso não envelhece, o disco de vinil continua aí, enquanto o iPod é descontinuado. O livro impresso você paga uma vez e nunca precisa atualizar; O disco de vinil (ou o CD) não dependem do boleto da sua conta de internet. O digital como meio, é, talvez, uma solução. O digital como fim é, na melhor das hipóteses, a precarização e submissão a um poder que não está em nossas mãos. Está ao nosso alcance, mas é o mesmo alcance que um cachorro acorrentado tem de seus potes de ração e água.


Não quero pensar em um mundo onde as pessoas só possam chegar à minha arte depois que pagaram o boleto à empresa que produziu seu aparelho eletrônico (mais atual, porque o de seis meses atrás não roda mais o aplicativo que ela utiliza para ler livros digitais) e estão em dia com as mensalidades da operadora de internet. Quero que minha arte possa chegar ao leitor sem nem mesmo depender de luz elétrica. Acabou a luz? Com a luz do sol dá pra ler o livro. E o livro, depois de lido, pode ser doado, ou trocado no sebo, pode ser esquecido no ponto de ônibus, no assento do transporte público... Quanto mais restringir os pedágios capitalistas, melhor.


Da mesma forma que não é a mesma coisa ver um quadro da Tarsila do Amaral no Pinterest a 200 pixels do que ver o quadro real exposto em um museu, ou assistir a uma peça de teatro no Zoom do que no teatro, não é a mesma coisa escutar um disco de música em mídia física do que no formato digital, e o mesmo vale para o livro e qualquer outra forma de arte.


Podem existir exceções? Claro que podem. E existem. Mas que não seja a regra. Porque, quando for a regra, e eu, por ventura estiver vivo, a liquidez de minha tristeza se salinizará.



¹ Utilizei a palavra lida, do verbo ler, ao invés de consumida, porque acredito que é a arte que nos consome e nos transforma, de dentro para fora. A nós cabe a leitura e a busca.

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