A fina linha entre a depilação e a mutilação genital feminina


Há algum tempo, li um artigo sobre a descoberta de uma comunidade indígena na Colômbia que pratica a mutilação do clitóris. O que fez com que o ocidente fosse incluído no mapa da mutilação genital feminina, quando antes se pensava que tal violência contra a mulher era restrita apenas à África e Ásia.


Após a leitura do artigo, retomei uma reflexão que já ululava em minha mente há alguns anos: a mutilação genital feminina nunca foi um fenômeno restrito a determinadas culturas e regiões, mas sim um fenômeno mundial que apostema a humanidade como um todo, em diferentes níveis, é claro, sejam eles físicos, emocionais, psicológicos ou culturais.


Não preciso ir muito longe para ilustrar minha indagação.


Tomemos a “inofensiva” prática da depilação feminina como exemplo. Uma prática que, para mim, é uma espécie de nível “mais leve” da cultura da mutilação genital feminina. Não estou criticando as mulheres que se depilam, mas, sim como esta prática, em um contexto social e comportamental, ganha traços de opressão e violência contra a figura da própria mulher e sua feminilidade.


Qualquer indivíduo que não dormiu nas aulas de biologia do ensino fundamental e médio, sabe que durante a puberdade, mulheres e homens passam a desenvolver os famosos pelos pubianos. Aqueles pelos grossos que crescem acima e em volta dos órgãos sexuais. E como tudo em nossa anatomia, não está ali por acaso. Segundo alguns estudos, a principal função dos pelos pubianos é a de proteção dos órgãos sexuais contra micro-organismos que podem causar infecções. Inclusive, nas mulheres, esses pelos também servem para proteger as áreas sensíveis da vagina.


A medicina preventiva recomenda que tanto homens quanto mulheres, ao contrário do que o senso comum diz, evitem se depilar como uma atitude de higienização. Já que pesquisas recentes sugerem que raspar os pelos pubianos pode aumentar o risco de contrair uma doença sexualmente transmissível.


Nova Jersey, nos Estados Unidos, chegou a proibir a chamada depilação Brasileira (conhecida aqui por nós como “virilha cavada”) como medida preventiva de saúde da mulher.


Mas deixemos de lado as questões de nossa essência biológica e restrição ou não-restrição e reflitamos em cima de aspectos socioculturais.


Um fenômeno muito triste, evidenciado (e potencializado) pela internet, é o linchamento social que mulheres que resolvem aceitar sua natureza feminina sofrem ao posarem ou aparecerem em público sem estarem depiladas. Vide as piadas eternas que fazem em cima da atriz Clauida Ohana (por suas aparições em edições da Playboy) e com a ex-atriz pornô Sasha Grey. Sem contar os comentários, tanto de homens quanto de mulheres, depreciando e subjugando mulheres que optaram por se aceitarem em sua naturalidade.


Há aí todo o reflexo de uma cultura execrável que mutila a genital feminina em prol de uma estética comercial, até mesmo de uma pedofilia velada — uma vez que a genitália (ou a pele toda) desprovida de pelos é uma característica de um corpo infantil.


Se a mulher está se depilando, fazendo regime, colocando silicone, alisando o cabelo… só para se adequar aos olhos dos outros, ela está perpetuando a triste cultura da mutilação genital feminina. Uma cultura de violência e opressão.


Afinal, sentir-se bem consigo mesmo (a) é um fruto da liberdade. E liberdade não admite restrição. O indivíduo livre se sente bem com pelos, sem pelos, gordo ou magro, sozinho ou acompanhado… O sentir já é explícito. É um sentimento. E como o amor, não possui forma e nem cor.


Ser homem nunca me impediu de olhar e respeitar a mulher pelo o que ela é. Simples assim. Sem os rótulos, preconceitos e distorções impostos pelas mais variadas culturas e sociedades do nosso microscópico (em nível de universo) planeta Terra.


Como disse, muito sabiamente, Isaac Asimov “a violência é o último refúgio do incompetente”. O competente não se refugia, mas abre os olhos e procura, sem medo, informar-se, aprender, desconstruir conceitos e preconceitos — libertar-se de imposições e dogmas.

Enfim, sejamos homens ou mulheres (cis, trans, gay, bi…), devemos cortar o "mal" pela raiz. A partir de nós mesmos. Olhemos e respeitemos as mulheres pelo o que elas são e nunca pelo o que as sociedades as querem moldar.

A Voz: Quem é você mulher? Mulher: Eu sou o que eu sou. A Voz: O que você é? Mulher: A diversidade, a pluralidade, o diverso no uno: universo.

#corpo #sociedade #mulher #feminismo

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© 2020 por Leonardo T. Vieira.