Apaixone-se por pessoas e não por genitálias!


Parece-me que, quando o assunto é sexo e sexualidade, o ser humano contemporâneo tende a pensar apenas na sua genitália e na genitália do outro. Digo contemporâneo, pois essa questão das genitais é coisa relativamente recente, do século XIII, mais ou menos, de quando São Paulo, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino empurravam goela abaixo seus problemas psicológicos na forma de dogmas da igreja católica. Imbecilidade que, não muito tempo depois, serviu de doutrinação durante a era vitoriana e continua até os dias de hoje como mola propulsora da insatisfação material, tão necessária para o capitalismo.


Sexo e sexualidade é muito mais do que o conceito, reducionista e opressor, de que quem tem um pinto deve enfiá-lo em quem tem uma vagina e friccioná-lo com o único intuito de reprodução e perpetuação da espécie. Inclusive, a sexualidade é um conceito cultural recente, o que faz da comparação com civilizações antigas, como a grega e a egípcia, por exemplo, quase impossível, uma vez que não encontramos os rótulos que empregamos atualmente e nem os papéis tão definidos assim nos registros históricos que sobreviveram até os dias atuais.


Quase impossível, mas vamos forçar a barra: na antiguidade ocidental (na mais estudada pelo menos) podemos enxergar, bem limitadamente, os conceitos de sexo e sexualidade como um movimento cultural mais experimental, de autoconhecimento, de busca de saberes acerca do campo emocional, da libido e uma relação com o outro. É por isso que encontramos figuras e narrativas de homens transando com homens, mulheres transando com mulheres, homens transando com mulheres, todos transando com tudo e todos, mas sem muita referência precisa (definições e rótulos), como os conceitos que utilizamos hoje de heterossexualidade, homossexualidade, transexualidade etc. Daí veio o cristianismo institucionalizado e o pensamento científico amparado pela igreja doutrinadora e voilà! O mundo passou a ser duotone, preto e branco, pecado e virtude. Porém, o objetivo deste texto não é fazer uma apuração/comparação histórica precisa, quem quiser se aprofundar mais no assunto recomendo História da Sexualidade, do Foucault.


A dicotomia cristã e a infraciência dos idos vitorianos impregnaram tanto o inconsciente coletivo da humanidade que, mesmo os grupos que são oprimidos e reprimidos por essa mentalidade maniqueísta como os LGB e T, acabam resumindo seu discurso à falácia da genitália.


Genitálias são, em sua maioria, órgãos excretores e de reprodução, não são providos de personalidade, muito menos são elas que definem um indivíduo (as pessoas transexuais estão aí). Definir relacionamentos e interações humanas pela genital é tão raso. Um pênis pode brochar, uma vagina pode ter dispareunia. A genital é a pequena parte de um todo. Temos prazer físico através dela, mas não somente por ela. Terminações nervosas? Nosso corpo está cheio delas, por isso nos beijamos com os lábios, por isso adoramos receber uma massagem. Não é para excluir a genitália de nossas vidas, mas, também, não para restringir.


Quando uma pessoa diz que ela se interessou por alguém porque esse alguém é homem, ou porque é mulher, ela está reduzindo o outro a condição de ser apenas uma genitália. Um estereótipo. Uma inconsequente visão de que o ser humano é como uma pintura ou uma fotografia — imutável. Basta apenas um pouco de conhecimento, visitar diferentes culturas, diferentes bibliografias, viajar, olhar ao redor sem preconceito para perceber que nós, seres humanos, somos tão complexos e intrincados que o erro de rotular e enquadrar só agrava os sintomas desta doença que nos assalta em pleno século XXI. A mazela da ignorância.


Não sejamos idiotas, pessoas comuns. Em um universo tão vasto, provavelmente infinito, que não temos, ainda, como datar com precisão, escolher olhar para o próprio umbigo é tão decadente que é difícil de acreditar que as pessoas que enviam sondas espaciais para Saturno e as pessoas que assassinam outras por puro preconceito são da mesma espécie.


Está mais do que na hora de começarmos a nos apaixonar por pessoas e não por genitálias. Não somos imortais, em um universo em constante expansão, somos mortalmente substituíveis.


#amor #sexo

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© 2020 por Leonardo T. Vieira.

Campo Grande, MS. Brasil.