Apoiamos corruptos e andamos com más companhias apenas para afastarmos a solidão.


Estava pensando em quantas pessoas propagam o ódio e o preconceito pela internet, em quantas vozes no meio da rua verbalizam xingamentos e enaltecem lideranças corruptas, em quantos dedos apontam para o diferente, em um gesto de discriminação e opressão.


Parece que quanto mais veículos o ódio, o preconceito e a violência encontram, mais força eles ganham. Que golpes legitimados pelo silêncio ou presidentes eleitos por sistemas democráticos muito mais do que questionáveis são sintomas da vitória de um dos lados de um mundo dicotômico.


Mas tudo isso não passa de mera ilusão.


É óbvio, a violência e o sofrimento não são ilusões. A realidade está aí e tapeia nosso rosto todos os dias. A ilusão está em acreditar que o preconceito e o ódio são sinais da vitória de algum meio maléfico ou de algo que divise com o que concebemos como contrário ao que nos faz mal: felicidade, bondade, realização…


A vida não é uma moeda, nem um filme preto e branco, muito menos uma doutrina maniqueísta. É cheia de oscilações, de intersecções, não possui fronteiras ou bordas perfeitamente delimitadas. É impermanência, relatividade, descobertas e desconstruções.


Penso que os sintomas que amplificam esse mal-estar coletivo sejam resultado de uma única ocorrência: a solidão.


Está mais do que claro. As pessoas que criam grupos de ódio nas redes sociais, que apoiam Bolsonaros e Malafaias da vida, e o que mais pudermos encaixar nesse estereótipo, são pessoas solitárias.


O mundo se torna cada vez mais violento a medida em que a solidão se propaga pelos seres humanos. E solidão não é estar simplesmente sozinho fisicamente, é muito mais complexo do que isso.


Fazer parte de grupos de ódio, apoiar golpistas e personalidades de ideais e objetivos questionáveis é o meio mais rápido e fácil de abafar esta voz do silêncio, insuportável, que é a solidão. Digo fácil, porque não é preciso de esforço, sequer pensar, para ser acolhido por estes grupos. Há também a questão da identificação. Os mesmos que propagam o ódio e que lideram marchas e movimentos de discriminação e violência e que perpetuam o preconceito, estão ali, única e exclusivamente, por causa da própria solidão. E é algo tão aterrador que eles precisam de uma via rápida, de um meio intravenoso. É por isso que as religiões dogmáticas existem até hoje e se proliferam como ervas daninhas (vide a epidemia de igrejas evangélicas).


Pessoas bem-intencionadas propagam que não há dogma/religião superior a verdade, mas o ópio do povo está no medo provocado pela solidão e que é capaz de superar a qualquer verdade.


Por isso eu digo: não temamos a solidão. Nós nunca estaremos sós, pois sempre teremos a nós mesmos. Solidão não é tristeza e nem peso, mas sim ponto de partida para a autotransformação.


A ignorância irá vingar enquanto existir o medo de estar sozinho.


#política #brasil

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© 2020 por Leonardo T. Vieira.

Campo Grande, MS. Brasil.