SUBCUTÂNEO

Atualizações & textos inéditos

Café pro Santo: mais que uma reescrita, uma retratação

Hoje terminei de reescrever o segundo ato de Café pro Santo. Foi um dos momentos mais difíceis, pois precisei reescrever quase tudo.


Antes, gostaria de observar que hoje o meu estilo de escrita é muito diferente da escrita presente em Café pro Santo. Um dos desafios da reescrita desse livro está sendo, justamente, reescrever sem alterar o estilo que eu utilizava na época em que eu escrevi.


Mas, ao reescrever o segundo ato, muito mais do que uma reescrita, tive a certeza de que é um exercício de retratação.


Não que no primeiro ato já não existisse sinais de uma escrita impregnada de machismo e preconceitos estruturais, mas, durante o segundo ato, a objetificação e a sexualização sem sentido de personagens femininas estava demais, confesso, tanto que, quase pensei em abandonar todo o processo e simplesmente fingir que o livro não existe.


Renunciá-lo.


Seria muito fácil e cômodo, não?


Levantei, alonguei os braços e as pernas.


Não iria renunciar ao livro.


E, sim, retratar-me.


Como escutei, certa vez, da Manuela d’Ávila, o machismo é como uma piscina. Algumas pessoas estão mergulhadas bem no fundo, outras estão da cintura para baixo, outras apenas com os pés..., mas todas estão se molhando nessa piscina. Isso quer dizer que o machismo é estrutural. Que não vou deixar de ser machista do dia para a noite, mas que é um processo.


Reescrever Café pro Santo é dizer que sim, meu primeiro livro tem muita coisa machista, além de alguns erros estruturais de narrativa.


Na época em que escrevi eu não percebia isso e, com certeza, se me acusassem de machismo eu ia negar. Hoje tenho muito mais consciência e mais bagagem.


Reescrevo procurando não alterar o estilo de escrita de 2014, porque essa é a história que eu queria contar e escrevi lá atrás. E continuará a ser.


Devido as minhas limitações, por estar mais imerso na piscina do que eu gostaria, sei que o Leonardo, se tivesse a visão que tem hoje, não escreveria a história daquele jeito.


Eu estou vivo e, cada vez mais, buscando por consciência e empatia.


E, justamente por estar vivo, enquanto minhas histórias precisarem ser reescritas, eu reescreverei. E me retratarei.


Não há problema algum em assumir que errei. O problema é continuar negando o erro e, podendo fazer algo, não fazer nada.


A história da nova versão de Café pro Santo é a mesma. O cenário, os personagens, a trama, o tema e o estilo são os mesmos.


Só o machismo que não.


#caféprosanto #reescrita #escrita

44 visualizações1 comentário
  • skoob-icon-300x300
  • YouTube
  • Instagram

© 2020 por Leonardo T. Vieira.