A estética erótica aniquila o estoicismo do orgasmo



Em um pequeno livro chamado A Voz do Silêncio, escrito em 1889 por Helena Blavatsky e mais tarde traduzido para o português por Fernando Pessoa, lê-se já nas primeiras páginas:

A mente é o maior aniquilador do real. Que o discípulo aniquile o aniquilador.

A coisa em questão: quem se apega demais aos produtos da mente, acaba se afastando do real. E o que é o real? Para fins de síntese, vamos tomar por real aquilo que é. Simplesmente é. Sem a necessidade de ter um porquê ou uma causa (ou consequência) qualquer que seja. Aquilo que não é, está condicionado ao estar. Nós não somos vivos, nós estamos vivos. Nós não somos felizes, nós estamos felizes. Felicidade e tristeza, por exemplo, não são o que são, revelam-se apenas enquanto estados de transição. Impermanência. O mesmo se aplica a nós, a mente traduz o estarmos vivos como a vida em si. A não ser que você esteja vivo a mais ou menos 13,82 bilhões de anos e não tenha uma perspectiva de definhamento adiante, sinto informar, mas, assim como eu, você é um micro espirro intracelular imperceptível a olho nu da lua (ou da janela de um avião) – ou do outro lado da rua, caso esteja no horizonte de um míope sem óculos.

Mas não fique triste, enquanto estivermos vivos, poderemos desfrutar de uma rapsódia sensorial chamada orgasmo. Que, por constatações de natureza não divergente, pode se manifestar de maneiras que não necessitam de um porquê. Mas, espera. O orgasmo, sendo um evento tão particular, uma rapsódia sensorial, como descrito logo acima, não deveria precisar de um visto que, uma vez que, dado que, pelo motivo de?

Eis um paradoxo.

Talvez a confusão surja, por estarmos esquecendo de aniquilar o aniquilador. Metáfora. A meta de estar fora de onde nunca estivemos dentro.

Abracemos o paradoxo: o orgasmo é, pois independe do nosso estar. Quando as pessoas gozam, geralmente, tendem a definir/comparar o orgasmo com uma corrente elétrica. Talvez elas estejam certas (na teoria intelectual, mas não na ciência empírica). O orgasmo é a eletricidade e nós somos a lâmpada. Nós eduzimos (do latim educere: extrair, arrancar, transcrever) o orgasmo. O orgasmo independe de nós enquanto entes mentais, mas se faz real através de nós, uma vez que estamos vivos – independente da mente. Quantos de nós lembramos dos orgasmos que tivemos enquanto recém nascidos, ou crianças?

Estar vivo é pulsar, a nível micro, a vida que é.

E aí (enfim!) entro na crítica expressa: toda e qualquer estética erótica – pornográfica, religiosa, assexuada, geográfica etc. – é fruto, única e exclusivamente, da mente. A estética erótica embota, porque ela parte de uma projeção. É virtual. Uma miragem. Mas aí você diz que, sim, já gozou com aquele corpo trincado de whey e anabolizantes ou com aquele androide de silicone e, quem sabe, com aquele ser “antiestético” puramente estético produzido por alguma cultura millenials, X,Y,Z... A crítica, em sua integridade, não é sobre os corpos (esqueça os corpos!), mas sobre a mente. Sobre comprar a ideia de uma estética erótica e atrelar ela a causa e consequência de um orgasmo real.

Se Jesus fosse um praticante do tantra, talvez ele dissesse “antes de gozar, tira primeiro a trava (da estética erótica) do seu olho”. Ou, quem sabe, um Schopenhauer que superou a Matrix, escreveria “a estética erótica é como água do mar: quanto mais você toma, maior é a sua sede”.

Qual vai ser, a pílula azul ou a vermelha?

O orgasmo real, o orgasmo que é, acontece quando aniquilamos o seu aniquilador.


#sexo #sexualidade #comportamento #orgasmo #cultura

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© 2020 por Leonardo T. Vieira.

Campo Grande, MS. Brasil.