"Eu não tenho preconceito, mas..."


É quase paradoxal, em pleno século XXI, constatar a existência de pessoas que cultivam uma linha de pensamento retrógrada, imbuída de preconceitos. Pessoas que se baseiam em conceitos pré-estabelecidos que somente se sustentam às custas de argumentos falaciosos e raciocínios que beiram o pré-medievalismo.


Na antiguidade, ou até mesmo na idade média (onde o pensamento científico enfrentava uma grande luta contra um retrocesso chamado Santa Inquisição), era normal que as pessoas procurassem explicações sobre o que acontecia no mundo através de mitos e crenças. Eles não tinham culpa por acreditar que o sol era um deus ou que a Terra era chata e mediava um paraíso acima e um inferno abaixo, ou que uma divindade criou o homem do barro e a mulher de uma costela do homem. Os únicos instrumentos que dispunham para auscultar a vida eram a observação empírica e sua imaginação.


Mas nos dias de hoje, onde a ciência está tão avançada (em todas as áreas) e o conhecimento e o acesso à informação estão mais acessíveis do que nunca — tendo em vista toda a história da humanidade. Não precisamos esperar o Jornal Nacional ou o Fantástico selecionar e filtrar noticiar algum avanço científico para acompanhá-lo ou tomar conhecimento do mesmo. Temos, ao alcance de um clique, sites de periódicos científicos como o sciELOCNPqportal de periódicos da CAPES ou o Google acadêmico. Enfim, só para citar meios de nos informarmos sobre avanços científicos em português e com conteúdo gratuito.


Escrevo e comento, porque acho indigesto ter que, em rodas de amigos, nos dias de hoje (internet, GPS, Google, Inteligência Artificial, células tronco, astronautas…), presenciar comentários esdrúxulos e recheados de preconceito. Preguiça intelectual pura.


Exemplifico:

“Eu não tenho preconceito, mas espero que meu filho nasça de um jeito e permaneça assim toda a vida… O mundo está tão bagunçado e perigoso hoje em dia.” (Comentário de uma mãe preocupada com que seu filho/filha seja homossexual)

“O Brasil está sendo governado por um partido X que é o culpado pela corrupção. Antigamente que era bom. Que saudade do Brasil de antigamente. ” (Alguém, que faltou ou esqueceu todas as aulas de história, achando que o país já foi, alguma vez na história, isento de corrupção tanto política quanto social)

“Religião não se discute. ” (Quer algo mais ditatorial, discriminatório, resignado do que esse tipo de comentário?)


Tudo na vida se discute e se confronta. A ciência avança, segue adiante, porque está sempre se confrontando, questionando, testando. Ao contrário da religião (as dogmáticas) e do pensamento religioso o pensamento científico se permite ser posto à prova a todo instante.


Newton apresentou ao mundo suas Leis (princípio da inércia, princípio fundamental da dinâmica e princípio da Ação e Reação), com as ferramentas e limitações (das quais ele ultrapassou muitas) que ele dispunha em sua época ele foi capaz de empurrar a humanidade um passo adiante. A ciência não é um dogma, é uma série de descobertas e constatações que precisam constantemente serem testadas e comprovadas. É por isso que Einstein não descreditou (e muito menos transformou em dogma!), mas trouxe toda uma perspectiva nova sobre as Leis de Newton com sua Teoria da Relatividade. Em nosso mundo macrofísico as Leis de Newton funcionam tão certas quanto 2+2 são 4, mas já em um contexto da relatividade, de mecânica quântica, microscópico, subatômico, estas leis precisam ser revistas e são repensadas.


Não sou cientista, mas não me privo de ter um pensamento científico. De questionar. De não acreditar em nada, mas estar aberto a tudo.


Quando alguém aparece com o discurso de que “não tem preconceito, mas…”, é certo de que após este “mas” seguirá um discurso do mais preconceituoso que se pode conceber. A perfídia de alguém que, além de enganar a si mesmo, quer tentar enganar os outros.


Todo tipo de preconceito e recusa em aceitar o novo, em mudar, é fruto de uma coisa apenas: o medo.


E só se combate o medo com conhecimento. E as armas do conhecimento são a inquietação, o questionamento e a capacidade de desaprender para aprender.


Antes de você falar que não tem preconceito, procure fazer uma revisão comparada de todos os seus conceitos com os avanços e descobertas que a sociedade tem conquistado. Estude um pouco. Deixe a novela, ou o seriado, um pouco de lado e vá ler, se informar. Cinco minutos já fazem uma diferença monstruosa!


Termino este texto sugerindo três obras que requerem muita coragem e enfrentamento do medo provocado pelo dogmatismo crônico. Sugiro a leitura de A Cultura e o Problema Humano, de Krishnamurti; O Mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan; e O Anticristo, de Nietzche.


Boa leitura.


#sociedade #preconceito

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© 2020 por Leonardo T. Vieira.

Campo Grande, MS. Brasil.