Livros mudam pessoas?


Livros mudam pessoas?


Balela! Mudam para quê, para o quê? Para o bem? Para melhor? O que é bem? O que é melhor? Quais livros? Todos os livros?


Nós sabemos (lá no fundo), eu e você, que isso não é uma verdade absoluta. Carregamos e nos orgulhamos dessa “bandeira positiva”, mas é a mesma coisa que acreditar que a coca-cola faz bem e transforma as pessoas. Transforma, mas em obesos, diabéticos e viciados em açúcar. É como acreditar que a educação “muda” as pessoas para “melhor”. Hitler foi um grande estudioso (pois teve uma boa educação), a maioria dos líderes (políticos e religiosos) corruptos, armamentistas e segregadores tiveram (e têm) boa educação. Eles mudaram com os livros. Mas para melhor? Pense nisso.

Não estou dizendo que livros não mudam (isso é um texto e não um dogma!), mas, sim, que esboço que mudança não deveria ser o slogan da bandeira da literatura e sim subversão. Como no tantra, “transgredir para transcender”.


Charles Bukowski, sabiamente, disse que “o indivíduo bem equilibrado é insano”. Insano porque não acredita na massificação ou na halo-transformação, na meta-idiossincrasia coletiva. O indivíduo insano, para a sociedade (altamente dicotomista e doutrinadora), é aquele que não pende nem para direita nem para a esquerda, muito menos para o centro. O seu interior. Universalista. Holístico. Sem preconceito. Equilibrado.


Daí a importância da literatura ser subversiva e, jamais!, massificadora, mastigada e blasé.

Ainda nas palavras de Bukowski: a”s pessoas engolem Deus sem pensar, engolem o país sem pensar. Esquecem logo como pensar, deixam que os outros pensem por elas”. Podemos trocar as palavras “Deus”, “país” e “outros” por “livros”, “editoras” e “autores (blogueiros/vlogueiros)”. Um livro, seja do gênero, do rótulo ou classificação que for, deve contribuir para que os leitores comecem a pensar por si próprios.


Quando você pega um livro para ler, não foi o livro que o chamou, que desviou o seu caminho. Mas sim você, única e exclusivamente você que decidiu pegar o livro e começar a ler. A mudança partiu primeiro de você, por mais que alguém (ou uma propaganda, ou um vlog/blog) tenha sugerido o livro ou te obrigado a ler (como muitas escolas fazem). Sempre a decisão final, o gesto siso é seu.

Quando Manoel de Barros disse que “quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas — é de poesia que estão falando” ou “quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito”. É porque ele era um escritor consciente da subversão que os livros devem provocar nos leitores.


Não é uma forma pré-moldada, um editor, um nome na lista dos mais vendidos, que vai fazer o livro mudar um fio de cabelo sequer do ser do leitor. É no desapego, na surpresa, na transcendência — na subversão individualizadora que um livro, tecido na mais transgressora orgia do autor com as palavras — num vanguardismo apócrifo –, que algo realmente pode acontecer. Não digo uma mudança, mas algo.


Apropriando-me de um pensamento lógico do gênio musical Frank Zappa, podemos chegar à seguinte conclusão: com tantos livros sobre amor e paz, se eles realmente mudassem as pessoas, estaríamos vivendo em uma utopia.


Por isso, mais importante do que uma possível mudança que os livros possam fazer nas pessoas, o ponto vital é que os livros (e seus autores) se preocupem em subverter seus leitores. Estimular autonomia, cabeças pensantes e indivíduos criativos.


Livros não mudam nada. Mas, se ressignificados, podem contribuir com algo. Um algo capaz de ser meio e nunca um fim.


#livros #literatura

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© 2020 por Leonardo T. Vieira.

Campo Grande, MS. Brasil.