Magia, Internet e as Redes sociais como Redes Suicidárias

Atualizado: Mai 12



É inegável o fato de que quanto maior a luz, maior a sombra projetada para além do objeto que recebe a luz. Se existisse somente luz, praticamente, não existiria objeto. O objeto enquanto coisa. A coisa em si: seria nada. O mesmo se aplica ao inverso, se existisse apenas escuridão. É o equilíbrio, os espectros e variações entre luz e sombra, que permite a possibilidade de definição das coisas, as quais identificamos como peças essenciais para que possamos montar o quebra-cabeças do nosso mundo.

Talvez, esse princípio possa se aplicar à ideia de conhecimento: quanto maior o conhecimento atingido pela humanidade, maior a sombra de ignorância projetada para além daqueles que produzem e acumulam tal conhecimento.

Quando reflito sobre isso, logo penso na relação entre internet e as redes sociais. E, também, na tecnologia da internet como a magia do século XXI.

A tecnologia de informação que conhecemos pelo nome de internet chegou a um nível que uma pessoa comum do início do século XX teria certeza de que estaria presenciando um evento mágico, sobrenatural. Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia, disse o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke. Magia, palavra que na nossa língua deu origem a outras palavras como magistério, magistrado. Magia, palavra símbolo, coisa que, no meio esotérico, agrega seres iluminados. Mais uma vez, a ideia de luz. O iluminado, ou mago, é alguém que se distancia das sombras da ignorância e compreende o funcionamento do mundo em que vive para, então, professar a luz para o resto do mundo. O professor é aquele que, em nossa sociedade, exerce o magistério. É quem, através da palavra (no inglês spell = soletrar, palavra, magia), transmite o conhecimento (luz) – oferece as ferramentas para que o indivíduo possa iluminar a si e outros, contrapondo e atenuando as sombras da sua ignorância. Para que de idiota se traduza em ser político.

A internet é como Maya, a deusa hindu da ilusão. Para um ocidental, a ilusão representada pela deusa pode ter conotações negativas. Mas, para um hindu, Maya é como se fosse um princípio agente da ilusão, mas não a ilusão em si. A ilusão de Maya reside na nossa inaptidão de ver as coisas como elas realmente são. Como uma foto com filtro no Instagram, nós a vemos de forma adulterada, de acordo com as limitações impostas pelo usuário que a postou e das nossas próprias limitações. O problema não é a ilusão, mas como respondemos a ela.

Assim como Maya, a internet foi disseminada entre nós, a princípio, com o intuito de potencializar, a níveis jamais vistos em nossa história, as tecnologias de informação. Em um tempo muito curto, transitamos das enciclopédias impressas, elitistas e de limitada vida útil, para o Google.

Projetamos uma luz tão forte e (será?) não pesamos a sombra proporcional.

O saudoso professor Umberto Eco, certa vez, preveniu-nos sobre as redes sociais e seus efeitos para a internet e a nossa sociedade:

Normalmente, os idiotas eram imediatamente calados, mas agora (com o advento das redes sociais) eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel... A TV já havia colocado o “idiota da aldeia” em um patamar no qual ele se sentia superior. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.

Aqui no Brasil, nós vimos o idiota da aldeia se vender como portador da verdade e, graças à internet e às redes sociais, tornar-se presidente do país.

Não bastasse o idiota nos (des)governar, vemos, todos os dias, o mesmo utilizar e transformar as redes sociais em redes suicidárias, onde os imbecis identificados com o idiota mor, reúnem-se em massa e esperam ordens indiretas, muitas vezes diretas!, para se suicidarem em prol de um mau maior.

Em meio a uma pandemia, pessoas são induzidas ao erro, na mesma medida em que a ciência pede para que as pessoas se isolem, que os governos administrem o isolamento social, no intuito de conter a propagação do vírus, presenciamos idiotas fazerem pessoas se aglomerarem em locais públicos, descreditarem na ciência... Um suicídio coletivo digno dos episódios de seitas religiosas que a nossa sociedade já registrou.

Talvez, a ciência não esteja sendo mais efetiva por apostar demais na luz. Para aqueles que sempre viveram nas trevas, mesmo a luz branda pode cegar. E, para aqueles que estão tempo demais na luz, a sombra pode confundir.

A solução, quem sabe, esteja na analogia citada por Gautama Buda, sobre a gorda de um instrumento musical:

Se afrouxarmos demais, a corda não emite som. Se esticarmos demais, a corda se rompe.


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© 2020 por Leonardo T. Vieira.