Mais do que hábito, tenha paixão pela leitura


Acredito que o mais importante na leitura é a paixão. Sou contra a ideia de impor o hábito como regra. Pessoas que prelecionam o hábito acima da paixão são indivíduos que,mesmo com boas intenções, pretendem massificar, medianizar.


Como Ariano Suassuna disse, “a massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto… Nunca vi um gênio com gosto médio”. Ou seja, quando você assume uma atitude passiva e busca o hábito mecanizador antes da paixão germinante, acaba se conformando — perdendo-se em uma mediatriz cognitiva. Que sai da condição natural de um leitor saudável.


Em algum ponto da minha vida assisti a um vídeo onde o apresentador disse que um leitor “comum” absorve apenas 20% da história que leu. Procurei por referências no vídeo para algum estudo a respeito dessa porcentagem e não encontrei (se existe, por favor, linkem isso nos comentários!). Procurei no Google e também não encontrei nada que pudesse fornecer subsídios a essa conclusão falaciosa. Refleti sobre a suposta conclusão e compreendi que ela é fruto de uma visão mecanicista, que visa o desempenho técnico em contraponto à polissemia do ritmo de cada leitor.


Segundo Silva (1948)*, a leitura é um ato de conhecimento, pois ler significa perceber e compreender as relações existentes no mundo.


Conhecer é apaixonar-se. Hábito sem paixão é ducto mecanicista. Paixão que é vivida todos os dias, onde o hábito é fruto e não ferramenta.


Após o vídeo dos “20%”, parei e olhei para minha relação com a leitura. Percebi que, acima de tudo, sou um apaixonado por ler e escrever, mas que, também, estava me rendendo ao ato hipócrita da massificação tecnicista.


O leitor não tem que se preocupar com um nivelamento, com a comparação. Tem sim é que se preocupar com sua paixão. Se a leitura é um aspecto de realização, então não há nada que a corrobore.

Não foi à toa que Fernando Pessoa disse que “ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo”.


Para Freire (1989)**, a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele.


A leitura do mundo é paixão, a leitura da palavra é técnica. Ou seja, a técnica (a boa técnica, a que rende frutos) só se realiza a partir da paixão.


Logo, apaixone-se primeiro pela leitura. Paixão é prefixo. Hábito é sufixo.

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* SILVA, Ezequiel Theodoro da. Leitura na escola e na biblioteca. 3ª ed. São Paulo: Papirus, 1948.

** FREIRE, Paulo. A importância de ler: em três artigos que se completam. 23ª ed. São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1989.


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© 2020 por Leonardo T. Vieira.