Não sonho com um mundo feliz onde todos se amem.


Sonho, sim, com um mundo intelectualmente irrequieto onde todos se respeitem.


As pessoas, em sua maioria esmagadora, querem ser felizes. Buscam a felicidade, sonham com a felicidade, esperam pela felicidade — seja em vida ou em um hipotético paraíso póstumo. Felicidade é slogan para campanha publicitária, justificativa para guerras, arrebanhamento de fiéis, moeda de troca, briga de família, futebol, amor, receita médica e tudo o mais que se possa “vender” para que a humanidade (ou o indivíduo) atinja este hipotético fim.


Mas a felicidade, mesmo que hipoteticamente, é um fim? É claro que não. Está mais para um meio, uma espécie de desculpa para desviar o foco do indivíduo, ou das massas. Cristalizar o intelecto, interromper o processo de pensamento que, logicamente, leva ao questionamento. À inquietação. Ao movimento. E o movimento incomoda, enjoa aqueles que têm medo de navegar sobre as águas turbulentas da vida. Uma belíssima ferramenta para líderes (esses que, mesmo nauseados, jamais desgrudam do leme e gritam ordens àqueles que seguram os remos), de todas as esferas da sociedade, conduzirem seus rebanhos. O chicote mais efetivo de todos. Um chicote cuja a ponta não é feita de ferro, mas sim de promessas.


O que é felicidade? Por mais que haja um espaço para esta palavra no dicionário e, pasmem, até uma definição, ao fazermos esta pergunta para diferentes pessoas, de diferentes credos, filosofias e regiões do mundo, poderemos criar um outro dicionário somente com a lexicografia gerada por este “inofensivo” verbete.


Felicidade me parece mais como um distrativo, uma cenoura pendurada a um palmo de distância do burro, objetivando a inércia desencadeada pelo movimento compulsório.


Se deixarmos de priorizar a felicidade e pararmos de sonhar com um futuro monocromático onde todos estão e serão sempre felizes, para darmos vez às tônicas da consciência e atenção integral do que acontece em nosso interior e ao nosso redor, a cada instante, seremos muito mais realizados ao invés de pasteurizadamente felizes.


É preciso tirar a felicidade do status quo da projeção e deixá-la ao lado do seu antônimo, seu gêmeo univitelino, o sofrimento. Em constante luta e transformação. Um antagonismo imprevisível. Que, como os polos negativo e positivo de uma bateria, servem para gerar energia, movimento, ação. E jamais a estagnação.


E o movimento, a ação de ser no mundo, é irrequieto. É puramente intelectual. Há mais ação e realização na figura de um monge em um estado de meditação integral do que em um, quase epiléptico, pastor cristão gritando contra a pluralidade e a imprevisibilidade do mundo ao seu redor. Mas nem um nem outro são a resposta para a descoberta de uma utopia. São as duas faces de uma mesma moeda. E que moeda é essa? Eis um questionamento para se relevar. E não serei eu a dar a resposta. É preciso pensar!


É por isso que eu não sonho com um mundo feliz onde todos se amem. Sonho, sim, com um mundo intelectualmente irrequieto onde todos se respeitem.


É o respeito que abre os caminhos para que a presença do intelecto faça sua jornada. Sem se preocupar com o fim, mas sempre atento a cada passo dado, a cada mudança sutil do ar. O problema daqueles que sonham com o amanhã, é que o amanhã será novamente hoje.


A felicidade estampada no sorriso coagulado de um boneco sem vida (intelecto, pensamento, sentimento) está fadada a, como ele, ser obliterada pelo tempo.


#amor #sociedade

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© 2020 por Leonardo T. Vieira.