Não é amor quando só se lembra de amar na iminência da morte. É egoísmo.


Em breves conjunturas temporais onde tragédias específicas solapam outras tragédias maiores e crônicas, não é incomum perceber o quanto esses acontecimentos trazem à superfície da sociedade um sentimento/atitude por demais egoísta: lembrar de amar ou estar junto de alguém quando a reminiscência da morte cutuca a mente consciente.


Da mesma forma que ser bom por temer uma divindade ou um castigo póstumo não é bondade, amar alguém ou lembrar de querer estar com alguém por causa da morte, também não é amor, muito menos uma honesta vontade de se fazer presente na vida do outro.


Quando a mídia destaca e explora tragédias específicas e pessoas começam a vomitar nas redes sociais jargões como “lembre-se que você pode partir a qualquer momento, diga sempre que ama seu parceiro (a), sua família…” ou “diga eu te amo, antes que seja tarde demais…”, elas estão, talvez, praticando uma incoerência sem tamanho. Pensa-se que, pelo menos nesses casos, pretende-se falar do amor de uma maneira altruísta. Mentira. Quando amamos, ou somos bons, ou queremos estar presentes, motivados pelo medo de morrer ou perder (está aí um verbo que já entrega o egoísmo puro!) alguém que pensamos amar, estamos, única e exclusivamente, sendo egoístas.


É nesses momentos que percebo o quanto o filósofo Friedrich Nietzsche foi acertado quando, em sua obra Crepúsculo dos Ídolos, escreveu que o egoísmo é natural. Somos parasitas das pessoas com as quais convivemos ou pensamos amar.


Talvez um budista ou um teósofo estejam mais próximos de um amor verdadeiramente altruísta, justamente por nadarem contra a maré do pensamento egoico. Mas nós, enquanto ocidentais, o egoísmo é a regra e não a exceção.


Até que ponto o egoísmo é ruim? Tal como os escravos que só servem seus amos por temer o chicote, amamos somente por temermos a morte ou algum outro fator externo?


É possível conceber um amor altruísta e nutridor ao invés de egoísta e parasita? É possível amar e ser livre ao mesmo tempo?


O importante é o ser e não o vir a ser; um não é o oposto do outro, havendo o oposto ou a oposição, cessa o ser. Ao findar o esforço para vir-a-ser, surge a plenitude do ser, que não é estático; não se trata de aceitação; o vir-a-ser depende do tempo e do espaço. O esforço deve cessar; disso nasce o ser que transcende os limites da moral e da virtude social, e abala os alicerces da sociedade. Esta maneira de ser é a própria vida, não mero padrão social. Lá, onde existe vida, não existe perfeição; a perfeição é uma ideia, uma palavra; o próprio ato de viver e existir transcende toda forma de pensamento e surge do aniquilamento da palavra, do modelo, do padrão. (Krishnamurti)

#amor

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© 2020 por Leonardo T. Vieira.