Parem de exaltar os livros enquanto soerguemos muros de fascismo cultural!


Segundo uma matéria publicada em 2016 no site UOL Educação, a cada 100 pessoas adultas, apenas 8 são capazes de entender e se expressar por meio de letras e números. Estas pessoas são consideradas “proficientes”, o que quer dizer que elas são capazes de compreender, formular e opinar sobre diferentes tipos de textos como e-mails, artigos de opinião, posição e estilo dos autores.


Agora imagine uma sala com estas 100 pessoas e todas ganhando um exemplar de Philia, do padre Marcelo Rossi – um dos livros mais vendidos noBrasil em 2016. Destas 100, apenas 8 terão a capacidade de ler, assimilar e formular uma opinião acerca do livro e do autor. E estamos falando de um livro do padre Marcelo Rossi! Imagine um Machado de Assis ou um João Guimarães Rosa nas mãos destas pessoas. Será que as estatísticas mudariam para as 8 privilegiadas? E as 92 pessoas restantes, como elas ficariam, como elas se sentiriam?


Eu sou um leitor e acumulo livros em um cômodo da minha casa, mas quando leio e/ou vejo pessoas exaltando a “cultura do livro”, não me sinto feliz e nem contagiado. Eu entrevejo, sim, o soerguer de uma barreira social, de uma hierarquização cultural, de um fascismo da erudição. Se em uma sala com 100 pessoas, apenas 8 conseguem significar um livro, alguma coisa está errada. Onde está o poder transformador, a janela para infinitos universos, o enriquecimento que os livros proporcionam para as outras 92 pessoas?


Eu distingui Marcelo Rossi de Machado de Assis e João Guimarães Rosa, mas até que ponto isso faz sentido, quando quase 100% da população no Brasil é de analfabetos funcionais? Provavelmente 100% da população já ouviu falar de Marcelo Rossi, mas, e de Machado e Guimarães Rosa?


Livros são janelas para novos mundos, lindas paisagens? Do que adianta colocar um míope, quase cego, diante de uma janela cuja paisagem ele não pode ver?


Enquanto livros forem tijolos de um muro que separa poucos de muitos, não é possível exaltá-los. Talvez, devessem ser acessíveis – populares.


Ressignificados.


#livros #literatura

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© 2020 por Leonardo T. Vieira.