Poema confinado #02




Uma série de poemas onde pretendo codificar em versos os afetos marginais de se viver em um país como o Brasil de 2020.

#02

morre negro de peste branca todo dia

desde o dia

maldito dia em que o branco apareceu

Schopenhauer já dizia

a pele negra é a natural

já a branca, nem Adão, nem Eva

muito menos o Deus judaico-cristão esse erro,

de embranquecer a pele, cometeu

de Tolstói a Nietzsche

de Freud a Machado de Assis

todos influenciados por Schopenhauer

sobre o erro da pele branca em seus textos nada existe

mesmo Machado, afro-brasileiro, escrever não quis

e o branco continua a matar o negro

a peste branca tem vergonha da pele branca

tem vergonha de reconhecer que é um erro

e tenta nos convencer do contrário há tantas

o Machado que não comenta Schopenhauer

só me lembra que ainda hoje no Brasil

a indignação é colonizada

só quando o mando vem de lá

do país mais podre, do país de Trump

é que as pessoas ecoam

vassalas vozes

Zumbi, Marielle, João Pedro, Miguel e tantos outros

ainda a mercê do imperialismo insosso

minha pele é miscigenada, mas quisera eu remover todo o DNA branco e ficar só com o sangue guarani de minha avó Jurema - Árvore Mãe

mas não posso, então incomodo

mas, enquanto respingo,

só incomodaremos o crime branco-ocidental cristão

quando fizermos de nosso país, nosso quintal e nosso coração

uma verdadeira Revolta de São Domingos

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© 2020 por Leonardo T. Vieira.

Campo Grande, MS. Brasil.