Sou dono de casa. Nem um pouco recatado, mas do lar.


Essa ideia, completamente misógina, de que quando um homem gosta de cozinhar, cuidar dos filhos e se dedicar a tarefas caseiras (lavar e passar roupa, jardinagem…) ele está assumindo o papel da mulher em casa, deveria ser banida, extirpada, de uma vez por todas da cultura humana.


Que papel é esse? Cozinhar, cuidar dos filhos, lavar roupa ou arrumar a casa são tarefas exclusivas da mulher? É lógico que não. Isso não é e nunca foi um papel da mulher, mas, sim, uma imposição patriarcal, sexista e doentia (não que o patriarcado e o sexísmo não sejam doentios, também são).

Constituindo uma associação com o pensamento de Simone de Beauvoir, quando ela escreveu que não se nasce mulher, torna-se, também podemos aplicar esse componente racional de seu discurso ao homem: não se nasce homem, torna-se. Tanto o homem quanto a mulher são construções de uma sociedade dicótoma. Uma cultura míope, bidimensional, resultante de uma história repleta de opressão, repressão e distorções.


Genitália não é currículo. Ter um pinto não quer dizer que você deve sempre usar calças, cabelo curto, ser fisicamente forte, grosseiro, gostar de azul, enfiar seu sexo em todo buraco que encontrar (como se fosse um score), muito menos ter que ficar jogado no sofá o domingo inteiro assistindo futebol. Da mesma forma que ter uma vagina não quer dizer que você deve gostar de rosa, brincar de bonecas, saber cozinhar, ser fisicamente frágil, depilar as axilas e genitálias, muito menos ganhar um salário inferior ao de alguém que tenha um pinto e ocupe o mesmo cargo que você. Genitália é apenas um órgão do seu corpo relacionado com a cópula. Se genitália definisse seu perfil psicológico e social, coitado do hermafrodita que nasce com os dois órgãos genitais!


Tendo em mente todas as situações e limitações que possam surgir, no geral, lavar roupa, cozinhar, limpar a casa são tarefas que qualquer ser humano é capaz de executar — seja ele homem ou mulher, gay, bi ou trans, tendo uma gônada, duas, três ou mil. Qualquer indivíduo pode gostar ou não de fazer, saber ou não. É tudo uma questão de escolha e estilo pessoais.


Eu sou um homem cis, casei com minha esposa (uma mulher cis) não porque me apaixonei por sua genitália, mas sim pela pessoa que ela é. Ela não gosta de cozinhar, mas eu amo e sou eu quem cozinha em nossa casa, sou eu quem lava a louça, e lavo porque gosto e me sinto bem, é ela que sai para trabalhar, enquanto fico cuidando do nosso lar e auxiliando na renda com freelances de editoração e escrita criativa. Minha esposa ganha mais do que eu, não vejo problema algum nisso. Sinto muito orgulho por ela e procuro apoiá-la em todas as suas escolhas profissionais. É minha esposa quem usa terno e roupas sociais com frequência, meu uniforme é o avental e as mãos cheirando a tempero. Quando assumimos uma tarefa, assumimos porque gostamos. Jamais porque a sociedade (ou qualquer outra coisa) impôs.


Por mais que a ignorância do coletivo tente exercer alguma pressão sobre a gente, entoamos o mantra sufi: esteja no mundo, mas não seja do mundo.


Sou dono de casa, com muito orgulho. Amo cozinhar, estar para a minha esposa. Confesso, não sou recatado, mas sou do lar.


#sociedade

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© 2020 por Leonardo T. Vieira.