Você não ama. Você cria ou compra uma ficção chamada amor.



Ocupo-me com a ficção, pois sei que ela é a base de sustentação da humanidade e do indivíduo humano. Existem, é claro, alguns pensamentos filosóficos, como o budismo e o hinduísmo, que tentam desconstruir a ficção (ambos a chamam de Maya, ilusão) como alicerce, mas, na minha perspectiva, a ideia de ilusão é apenas outra ficção – um efeito matrioska combinado com a fita de Moebius.

A ficção muito me intriga, porque quase a totalidade de nossa vida humana é pautada na ficção. A sociedade é uma ficção, o tempo é uma ficção, a religião é uma ficção, um país e suas fronteiras são uma ficção, a roupa é uma ficção, o materialismo é uma ficção... o amor é uma ficção!

A ficção é inerente ao ser humano.

A ficção é uma virtualidade. É a decorrência de uma narrativa criada para impactar esse estado transitório que “percebemos” como vida.

Até mesmo para definir ficção eu preciso utilizar (criar) da (uma) ficção (símbolo, palavra, conceito, narrativa), para que todas essas palavras não se tornem um fractal ágrafo.

Vou filtrar esse conceito por meio de outro conceito que incomoda os fiction junkies, ou seja, eu, você, qualquer um!

Vamos partir da ficção que não é a mesma para ninguém, mas que todos pensam que é e a chamam amor.

Quando alguém diz que ama algo, essa pessoa não ama. Ela parte do ponto narrativo da sua própria vida e define o que essa palavra significa para ela. O amor dela não é o mesmo amor que o outro possa sentir ou entender que sente.

Descontinuidade. Amor é a ficção mais prostituída pelo ser humano. Violência sem remate. Dúvida. A ficção acaba com a morte... (Trinta e Três, p.111)

Mesmo que Aristófanes (447 AEC – 385 AEC) tenha tentado, o amor ganha um status de egrégora a partir do momento em que o indivíduo opressor e egóico sente a necessidade de criar uma narrativa para justificar o poder sobre suas “propriedades”, inclusive após a sua morte. A ficção é uma droga tão pesada que o ser humano se agarra de maneira parasitária a essa tecnologia do fiasco. Percebe?

Sabendo-se ou não do fiasco, a egrégora prosperou e matrioskamente utilizou a arte para dar o primeiro grande passo. Talvez com Gaston Paris, no final do século XIX. Quem sabe? Qual ficção se apegar?

Alma gêmea, casamento, monogamia, família nuclear, dia dos namorados, amor de mãe... Vivemos em uma época em que a hegemonia capitalista impõe e utiliza dessa egrégora para gerar sofrimento, indignação, sedação, consumismo, especismo, desconfiança, separatismo... criar o gado perfeito – tanto no pensamento político de esquerda quanto no de direita!

Não sei, mas talvez a gente devesse se preocupar mais com o perigo da ficção amor do que com o perigo da ficção imperialismo.

Qual ficção move a outra ficção?

Você não ama. Você cria ou compra uma ficção chamada amor.

Não estou dizendo para jogarmos o amor fora, mas para, da mesma forma que, muito lucidamente, Carl Sagan refletiu:

Eu não quero acreditar. Eu quero saber!

Não acredite, não engula o que tentam empurrar para você. Queira saber! Vá atrás, estude, compare, reflita, desconstrua!

É por isso que terminei o meu trabalho mais recente, Vamadeva, com a tônica dessa ficção.

Vá atrás!

Não acredite!

Saiba!


#amor #ficção #sociedade

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© 2020 por Leonardo T. Vieira.